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Bala de borracha (como símbolo de ordem)

Na gramática da extrema direita, a bala de borracha é celebrada como símbolo de “lei e ordem”. “Tem que descer a borracha” é frase de camiseta e meme em grupos de policiais e apoiadores da violência estatal. A bala de borracha é tratada como carinho perto do que “mereciam”. Essa celebração sádica revela o desejo de punição sobre o corpo do indesejado — o pobre, o preto, o manifestante. A ordem que se defende não é a da paz, mas a da submissão pelo medo.

Expressão que descreve a forma como atos de violência e opressão são normalizados, burocratizados e apresentados como “rotina” ou “necessidade”. O fascismo e o neoliberalismo não precisam de monstros para funcionar; precisam de pessoas comuns que obedecem, que preenchem formulários, que cumprem prazos, que “só seguem ordens”. A banalidade do mal é a ausência de pensamento crítico: o carrasco não se vê como carrasco; vê-se como um funcionário que faz seu trabalho. Assim, a violência se torna cotidiana: o despejo de uma família, a demissão em massa, a morte de um jovem negro na periferia — tudo vira estatística, vira procedimento, vira “não é da minha conta”. A banalidade do mal é o combustível do sistema.

Grupo parlamentar que se apresenta como defensor dos valores cristãos, da família tradicional e da moralidade pública. O discurso oficial a enaltece como “a defensora da fé”, “a guardiã da família” e “a voz de Deus no Congresso”. A bancada evangélica é composta por deputados e senadores ligados a igrejas neopentecostais, que frequentemente atuam em bloco para aprovar projetos de lei com forte conteúdo moral e religioso. No entanto, sua atuação no Congresso Nacional busca impor uma agenda conservadora que ataca direitos conquistados, especialmente no campo dos direitos sexuais e reprodutivos. A bancada evangélica atua para restringir o direito ao aborto — inclusive em casos já permitidos por lei —, dificultar o acesso a métodos contraceptivos, impedir a educação sexual nas escolas, criminalizar a homofobia e a transfobia (ou, inversamente, dificultar a criminalização), e restringir a liberdade religiosa de religiões afro-brasileiras, frequentemente atacadas como “demoníacas”. Além disso, muitos de seus integrantes têm ligações com empresários e igrejas que fazem doações e financiam campanhas, criando uma teia de influência que mistura fé e negócios. A bancada evangélica também atua para reduzir direitos trabalhistas e ambientais, sempre sob a justificativa de defender “a família” — mas a família que defendem é a família patriarcal, heteronormativa e de classe média. Quando o discurso dos “valores cristãos” é ouvido, é preciso lembrar: a bancada evangélica não representa os cristãos que lutam por justiça social, direitos humanos e solidariedade; representa os setores reacionários que usam a fé para justificar a opressão e a desigualdade.

Grupo parlamentar que se apresenta como defensor do agronegócio, da produção de alimentos e do desenvolvimento do campo. O discurso oficial a enaltece como “o motor da economia”, “a força do agro” e “a garantia de que o brasileiro não passa fome”. A bancada ruralista é composta por deputados e senadores ligados a grandes latifundiários, produtores de soja, carne, celulose e minerais, bem como a empresas do setor de agrotóxicos e transgênicos. No entanto, sua atuação no Congresso Nacional é uma das mais perigosas para o meio ambiente, os povos indígenas, os quilombolas e os pequenos agricultores. Ela trabalha sistematicamente para flexibilizar leis ambientais, liberar o uso de agrotóxicos proibidos em outros países, reduzir áreas de preservação, facilitar o desmatamento e a grilagem de terras, e impedir a demarcação de terras indígenas e quilombolas. A bancada ruralista não defende a produção de alimentos para o povo brasileiro; defende a produção de commodities para exportação, que gera lucro para poucos e devastação para muitos. Quando o discurso do “agro é tudo” é ouvido, é preciso lembrar: o “agro” não é o pequeno produtor que cultiva feijão e mandioca; é o grande latifundiário que desmata a Amazônia, envenena o solo e os rios e expulsa comunidades inteiras de suas terras. A bancada ruralista é a face política do latifúndio e da destruição ambiental.

Grupo parlamentar que se apresenta como defensor da segurança pública, da vida do cidadão de bem e do combate à violência. O discurso oficial a exalta como “a voz da ordem”, “a defesa da família” e “o braço forte que a polícia precisa”. A bancada da bala é composta por deputados e senadores ligados a setores das forças de segurança, militares reformados, e políticos que defendem o endurecimento das leis penais e o aumento do poder de fogo da polícia. No entanto, sua atuação no Congresso Nacional tem como resultado a criminalização da pobreza, a ampliação da violência policial, o aumento do encarceramento em massa e a redução de direitos civis. Ela defende a redução da maioridade penal, o aumento das penas para crimes de menor potencial ofensivo (que atingem principalmente jovens pobres e negros), a flexibilização do porte de armas, e a ampliação do poder de polícia para atuar sem controle judicial. A bancada da bala também atua para reduzir ou eliminar mecanismos de fiscalização e controle da atividade policial, como corregedorias e ouvidorias, dificultando a responsabilização por abusos e mortes. Quando o discurso da “segurança pública” é ouvido, é preciso lembrar: a segurança defendida pela bancada da bala é a segurança de quem tem medo do pobre e do preto, não a segurança de quem vive nas periferias e é assassinado pela polícia. 

Instituição apresentada como técnica, neutra e necessária para controlar a inflação, garantir a estabilidade monetária e proteger a economia. A narrativa oficial defende sua independência como fundamental para que não haja interferência política nas decisões econômicas. No entanto, o Banco Central é um dos principais instrumentos do poder financeiro. A taxa de juros, definida por ele, é historicamente uma das mais altas do mundo — e isso não é um acidente técnico, mas uma escolha política que beneficia o sistema financeiro e os detentores de títulos públicos. O trabalhador que quer comprar uma casa, o pequeno empresário que precisa de crédito, o agricultor que precisa investir são penalizados. A “independência” do Banco Central significa que os banqueiros e o mercado financeiro têm poder de veto sobre políticas que poderiam beneficiar a maioria.

Parceiro do desenvolvimento, agente de crédito e motor da economia — assim o sistema bancário é vendido. Sem bancos, não há investimento, não há crescimento, não há emprego. No entanto, o sistema bancário brasileiro é um dos mais concentrados e lucrativos do mundo. Os bancos ganham dinheiro com o dinheiro dos outros — depósitos, poupança, dívidas. Cobram juros extorsivos, taxas abusivas e repassam pouco do que arrecadam para o desenvolvimento real. O lucro bilionário dos bancos é o lucro da exploração financeira: ganham quando você paga uma dívida, ganham quando você deixa de pagar, ganham quando o governo paga juros da dívida pública. O banco não é seu amigo — é o principal cobrador do sistema neoliberal.

Símbolo máximo da pátria, evocado com frequência em discursos patrióticos como representação da unidade nacional, da soberania e da identidade do povo brasileiro. O hasteamento da bandeira, o hino e as cores verde e amarela são mobilizados como elementos de uma suposta comunhão entre todos os brasileiros, acima de classes, interesses e conflitos. O discurso oficial e conservador repete que “a bandeira é de todos” e que defendê-la é dever de cada cidadão.

No entanto, a bandeira é constantemente distorcida como símbolo. Ela é usada para apagar as contradições sociais e criar uma falsa ideia de unidade entre exploradores e explorados, entre opressores e oprimidos. O verde, que representa as matas, é hasteado por aqueles que desmatam a Amazônia e expulsam povos indígenas de suas terras. O amarelo, que evoca as riquezas, é defendido por quem concentra a terra, o ouro e os minérios em poucas mãos. O azul, que remete aos céus, é invocado por quem polui o ar com queimadas e veneno. O branco, que simboliza a paz, é usado por quem defende a violência policial e a militarização da vida cotidiana. A frase “ordem e progresso” — inscrita na bandeira — é uma contradição em si: ordem para quem já tem poder, progresso para quem já acumula riqueza. Para o trabalhador, a ordem é a exploração; o progresso é o desmonte de seus direitos.

A distorção do símbolo nacional atinge seu ápice quando a bandeira é usada como capa para o autoritarismo. Governos fascistas e conservadores sempre se apropriam da bandeira para justificar perseguição, censura e violência. Aquele que critica o governo é acusado de “odiar a pátria”. Aquele que denuncia a desigualdade é chamado de “anti-brasileiro”. Aquele que luta por direitos é tratado como “inimigo da nação”. A bandeira, nesse discurso, deixa de representar o povo e passa a representar o governo, as elites e a repressão. Amar a bandeira torna-se sinônimo de obedecer ao líder, não de lutar por justiça social.

A verdadeira defesa da pátria não está em hastear a bandeira, mas em garantir que todos os que vivem sob ela tenham direito à terra, ao trabalho, à saúde, à educação e à dignidade. Amar o Brasil não é fechar os olhos para a desigualdade, a violência e o racismo que o país carrega; é lutar para transformá-lo em um lugar onde a bandeira realmente represente todos os seus filhos e filhas, e não apenas os que já estão no topo. A bandeira, em sua distorção, é usada para esconder que a pátria que se diz amar é, para muitos, um lugar de exploração e abandono.

Na cosmologia neopentecostal e da extrema direita cristã, a política não é debate de ideias, é “batalha espiritual”. Isso significa que adversários não são simplesmente opositores, são “demônios”, “servos de satanás”. Transformar a disputa democrática em guerra cósmica tem uma função perversa: elimina a possibilidade de diálogo e justifica qualquer violência.

Na propaganda fascista, o mundo se divide em dois blocos estanques: o Bem (nós) e o Mal (eles). O líder encarna o Bem; seus inimigos são o Mal absoluto. Psicanaliticamente, é o mecanismo mais primitivo de defesa: a cisão. Projeta-se tudo o que é inaceitável em si mesmo sobre o outro, que deve ser aniquilado. Esse maniqueísmo é o fundamento de todos os genocídios.

Algo que precisa ser protegido — mas imediatamente transformado em mercadoria. A água, a energia, as florestas e o conhecimento são declarados “bens de todos”, mas sua gestão é entregue a empresas privadas que cobram caro por eles e os tratam como fonte de lucro. A privatização do bem comum é a maior transferência de riqueza da história: o que era de todos passa a ser de alguns, que cobram da própria população para ter acesso ao que antes era gratuito. A água engarrafada é vendida a preço de ouro enquanto o acesso à água potável é negado. A floresta é vendida em créditos de carbono. O “bem comum” vira o lucro de poucos.

Promessa de felicidade vendida como produto. O discurso neoliberal transforma o bem-estar em algo que se conquista com consumo: a academia, o suplemento, o aplicativo de meditação, a alimentação orgânica, a terapia de coaching, o livro de autoajuda. Ser bem-sucedido é sinônimo de estar bem — e estar bem é sinônimo de comprar os produtos certos. No entanto, o bem-estar verdadeiro — descanso, tempo livre, lazer, afeto, comunidade — é cada vez mais escasso. O trabalhador exausto não tem tempo para cuidar de si; o endividado não tem dinheiro para “investir em qualidade de vida”. O bem-estar, nesse discurso, torna-se mais uma obrigação: você é culpado por não estar bem, por não se cuidar, por não ter “mentalidade positiva”. O sofrimento é individualizado; a solução é mercadoria.

Estigmatizados como “privilégios”, “gastos” ou “bolsa-esmola”. A narrativa dominante afirma que quem recebe benefícios sociais fica acomodado, dependente do Estado, e que é preciso ter “contrapartidas” e caráter temporário. Entretanto, os benefícios sociais são direitos conquistados por décadas de luta e a única garantia de sobrevivência para milhões de pessoas, especialmente num país com altíssima desigualdade como o Brasil. Bolsa Família, BPC, seguro-desemprego não são esmolas; são políticas de redistribuição de renda que tiram pessoas da miséria e movimentam a economia local. O discurso que ataca os benefícios sociais defende isenções fiscais bilionárias para grandes empresas — e nunca chama isso de “privilégio”. A elite não quer que os pobres tenham direitos, porque direitos custam dinheiro.

Prática exaltada como virtude moral suprema — especialmente quando realizada pelos ricos em direção aos pobres. A beneficência, nesse discurso, é a bondade do poderoso que estende a mão ao fraco, sem que isso exija qualquer transformação estrutural. Doar alimentos, construir hospitais, financiar creches — tudo isso é celebrado como generosidade, enquanto a desigualdade que gera a necessidade dessas doações permanece intocada. A beneficência é o ópio da elite: permite que os ricos se sintam bons sem abrir mão de seus privilégios. E permite que o sistema se perpetue: enquanto a caridade existe, a justiça social pode ser adiada. A beneficência não resolve a fome; apenas a torna mais suportável para quem a vê de longe.

Metáfora para o inimigo: o comunismo, o globalismo, a “nova ordem mundial” — assim é evocada. O discurso fascista afirma que forças ocultas estão destruindo a civilização e que é preciso uma reação radical para salvar a nação. No entanto, a “besta” é uma construção fantasiosa para criar pânico e justificar autoritarismo. Ao transformar o oponente político em uma força demoníaca, o fascismo desumaniza o adversário e legitima a violência contra ele. A “besta” não existe; o que existe são trabalhadores, estudantes, ativistas, professores — pessoas reais com demandas reais. A metáfora serve para esconder que o verdadeiro monstro é o próprio fascismo.

Patrimônio da humanidade que, no discurso oficial, precisa ser “valorizado” — o que significa patentear genes, vender créditos de carbono e mercantilizar o conhecimento tradicional dos povos indígenas e ribeirinhos. A biodiversidade é tratada como um recurso a ser explorado, não como um bem comum a ser protegido. Grandes empresas farmacêuticas, agroindustriais e de biotecnologia patenteiam espécies e saberes que são fruto de milênios de convivência entre povos e natureza. O discurso da “valorização” esconde a biopirataria e a privatização da vida.

Na boca de líderes autoritários e seus seguidores, “biografia não autorizada” é sinônimo de calúnia. A exigência de que só se publique o que o biografado “autoriza” é uma confissão involuntária de autoritarismo: o sujeito quer controlar a própria imagem até depois de morto. Historicamente, movimentos fascistas sempre tentaram reescrever o passado e criminalizar quem conta a história que desagrada.

Discurso que reduz toda a complexidade humana ao corpo biológico e à natureza. “Homem é homem, mulher é mulher, está na biologia” — a frase típica do influenciador de extrema direita para atacar pessoas trans e feministas. O biologicismo finge que a cultura, a história e a psicanálise não existem; tudo se resume a cromossomos e hormônios. É uma pseudociência rasteira que serve para justificar a hierarquia: se é “natural”, é imutável. A injustiça social vira destino biológico. Quem ousa contestar é “antinatural”.

Originalmente um conceito do filósofo Michel Foucault sobre como o Estado administra a vida das populações, o termo foi sequestrado pela extrema direita para designar sua própria paranoia: “a biopolítica globalista quer controlar seu corpo com vacinas e chips”. É uma inversão cínica: o que o fascismo sempre fez (controlar corpos, sexualidades, natalidade) é projetado sobre o inimigo.

Na política neopentecostal, a Bíblia não é um livro sagrado para leitura íntima e comunitária; é um objeto cênico e um escudo. Levanta-se a Bíblia na tribuna, na live, no comício, não para iluminar, mas para blindar: “Estou com a Bíblia, logo estou certo”. O texto é citado fora de contexto, recortado para justificar preconceitos e ignorado quando fala em justiça social, perdão de dívidas ou amor aos estrangeiros. É a Bíblia como fetiche: objeto mágico que confere autoridade absoluta a quem a brande e desarma qualquer questionamento.

Proteção necessária para que governantes e executivos possam tomar decisões “ousadas” sem serem prejudicados por processos judiciais — assim é vendida. A blindagem evita a “judicialização da política” e garante estabilidade. No entanto, a blindagem jurídica é o privilégio de quem tem poder de se proteger das consequências de seus atos. Enquanto o trabalhador é processado por pequenas dívidas, o político e o executivo com foro privilegiado e recursos ilimitados escapam da Justiça. Blindagem é a casca que protege o opressor da lei que ele mesmo criou. É a certeza de que, para quem manda, a punição é exceção; para quem obedece, é regra.

Sinônimo de sucesso, de entretenimento de qualidade, de “o que o público quer” — assim é glorificado. Grandes filmes, grandes sucessos musicais e grandes franquias são apresentados como o que move a cultura e gera empregos. Mas a lógica do blockbuster é a lógica da padronização: a indústria cultural produz o que é seguro, repetitivo, fácil de vender, e elimina a diversidade, a experimentação e a crítica. O blockbuster é a maconha do conformismo: mantém as massas entretidas enquanto o mundo desaba. Enquanto você se emociona com o herói da Marvel, o sistema corta seu direito à saúde. A indústria cultural não é entretenimento; é fábrica de consenso.

Termo usado para patologizar a resistência ao excesso de trabalho e à sobrecarga. No ambiente corporativo, o “bloqueio emocional” ou “burnout” é tratado como um problema individual — falta de resiliência, de gestão emocional, de inteligência emocional. Oferecem-se cursos de mindfulness, coaching e palestras sobre saúde mental, mas nunca se discute que o problema é a jornada exaustiva, a falta de direitos e a pressão por resultados. O bloqueio emocional, nesse discurso, é a falha do trabalhador em se adaptar a um sistema que o adoece. A solução nunca é mudar o sistema; é “consertar” o trabalhador.

Valor exaltado como qualidade essencial do bom cidadão e do bom trabalhador. A pessoa de “boa vontade” é aquela que se esforça, que não reclama, que faz mais do que sua obrigação, que colabora sem esperar recompensa, que aceita as condições impostas sem questionar. No ambiente de trabalho, a boa vontade é usada para explorar: quem tem boa vontade faz hora extra sem receber, cobre a folga do colega, aceita acumular funções, nunca diz “não”. No discurso moral, a boa vontade é usada para deslegitimar a luta: quem reivindica direitos é “mal-agradecido”; quem faz greve é “mau elemento”; quem exige o que é seu é “problemático”. A boa vontade neoliberal é a virtude do subordinado: a qualidade de quem aceita a exploração com um sorriso no rosto.

Figura construída para receber a culpa por todos os males da sociedade. No fascismo e no neoliberalismo, o bode expiatório é essencial para desviar a revolta popular dos verdadeiros responsáveis pela exploração e desigualdade. O imigrante, o comunista, o ativista, o pobre, o negro, o indígena, o LGBTQIAP+ — todos podem ser transformados em bodes expiatórios. O discurso fascista cria a narrativa de que esses grupos são os responsáveis pelo desemprego, pela violência, pela perda de valores, pela decadência moral. Ao mesmo tempo, os verdadeiros responsáveis — os donos do poder econômico, os banqueiros, os latifundiários, os políticos corruptos — permanecem intocados. O bode expiatório é a cortina de fumaça que esconde o inimigo real.

Termômetro da saúde econômica, motor do capitalismo, lugar onde investidores alocam recursos e geram riqueza — assim é glorificada. Quando a Bolsa sobe, a economia vai bem; quando cai, há crise. No entanto, a Bolsa de Valores é um cassino gigante onde se aposta com o dinheiro dos outros — inclusive dinheiro público de fundos de pensão, poupança popular e investidores institucionais. Ela não produz nada; apenas movimenta ativos financeiros descolados da economia real. A Bolsa pode bater recordes enquanto o desemprego cresce, a fome aumenta e os salários estagnam. O “termômetro” que ela mostra não é o da vida das pessoas, mas o da temperatura do lucro dos grandes acionistas.

Termo importado da nova direita americana (“cultural bolshevism”) e popularizado por Olavo de Carvalho no Brasil. Designa uma suposta conspiração comunista que, tendo fracassado na economia, resolveu destruir o Ocidente pela cultura: feminismo, arte moderna, direitos LGBTQIA+, tudo seria “bolchevismo cultural”. A teoria é absurda, mas sua função é clara: transformar toda demanda por igualdade em subversão.

A expressão que divide os seguidores do ex-presidente entre “raiz” e “nutella”. O “raiz” é o que não negocia, não modera, mantém-se fiel ao líder mesmo quando ele elogia torturadores ou humilha minorias. É a celebração da violência verbal como pureza ideológica. Psicanaliticamente, o “raiz” é o sujeito que encontrou no líder um ideal de eu tão absoluto que qualquer nuance vira traição. A radicalidade não está no conteúdo político (que é vazio), mas na intensidade da identificação.

Valor evocado para desqualificar argumentos que desafiam o status quo. O discurso conservador apela constantemente ao “bom senso” — como se as questões políticas e econômicas pudessem ser resolvidas pela intuição do cidadão comum, sem necessidade de análise, dados ou teoria. “Bom senso”, nesse uso, é o senso do dominante: é o que parece natural para quem está confortável. Achar que pobre é pobre porque não se esforça é “bom senso” — porque a meritocracia parece óbvia para quem venceu na vida. Achar que o Estado deve gastar menos é “bom senso” — porque a conta do supermercado fica pesada para quem já está no limite. O “bom senso” neoliberal é a cristalização do senso comum da elite, apresentado como verdade universal.

Valor moral evocado para desmobilizar a crítica política. O discurso conservador e fascista frequentemente apela à “bondade” para justificar a caridade, a ajuda individual, a compaixão pelo sofrimento alheio — mas nunca para exigir justiça social ou mudança estrutural. A bondade, nesse uso, é a virtude que mantém tudo como está: o rico é “bom” porque doa migalhas; o pobre é “bom” porque aceita sua condição com humildade; o político é “bom” porque sorri e aperta a mão. A bondade sem justiça é a moral do conformismo: ela ensina a aliviar a dor sem questionar a causa da dor. O fascismo adora a bondade, porque a bondade não faz perguntas incômodas.

Janela de oportunidade para o crescimento econômico — quando a proporção de pessoas em idade ativa é maior que a de dependentes. O discurso oficial afirma que é preciso aproveitar essa “janela” para acumular riqueza e investir. Mas o bônus demográfico trata seres humanos como números, como insumos para a produção. Quando a “janela” se fecha — com o envelhecimento da população —, o sistema descarta os mais velhos, reduz direitos previdenciários e precariza a aposentadoria. O bônus demográfico é uma exploração geracional: os jovens são usados para sustentar o lucro de hoje, e amanhã serão abandonados. O sistema não vê pessoas; vê força de trabalho com prazo de validade.

Prêmio ao mérito, à competência e à performance — assim são exaltados. A justificativa é que executivos merecem bônus milionários porque geram resultados. Mas os bônus executivos são recompensas pela exploração do trabalho alheio. Enquanto o trabalhador da linha de produção recebe salários mínimos e tem direitos precarizados, o CEO embolsa milhões, muitas vezes após demitir milhares, fechar fábricas ou precarizar ainda mais o trabalho. O bônus não premia competência técnica; premia a crueldade, a capacidade de extrair mais lucro de quem produz. O bônus executivo é a formalização da injustiça: quanto mais o trabalhador sofre, mais o chefe ganha.

A metáfora do bunker — fortaleza militar — foi incorporada ao vocabulário da extrema direita digital. Grupos de Telegram, canais de WhatsApp, servidores do Discord são tratados como “bunkers” onde os “patriotas” resistem ao “sistema”. O imaginário é bélico: estamos cercados, sob ataque, e precisamos nos blindar. O bunker digital é o espaço onde a informação externa é bloqueada e a paranoia se retroalimenta. Quanto mais se isola, mais a realidade externa parece hostil e ameaçadora.

Prova de que o modelo neoliberal funciona, de que o mercado está aquecido e de que o futuro é promissor — assim o boom é apresentado. Crescimento do PIB, alta da Bolsa e queda do desemprego são sinais de que tudo vai bem. No entanto, o boom econômico quase nunca chega ao trabalhador. O PIB cresce, mas o salário não cresce. A Bolsa sobe, mas a cesta básica também. O boom é a festa dos ricos: o champanhe é servido enquanto o trabalhador conta os trocos para o pão. E quando a bolha estoura — e sempre estoura —, a conta fica para os mesmos de sempre. O boom é o enfeite de Natal numa casa em ruínas.

A burocracia tem duas faces. Para os pobres e trabalhadores, ela é frequentemente uma barreira intransponível: filas intermináveis, documentos exigidos em excesso, prazos curtos, linguagem inacessível, sistemas digitais que excluem quem não tem internet ou letramento digital. O trabalhador que precisa do seguro-desemprego, o idoso que busca o BPC, a mãe que tenta o Bolsa Família — todos enfrentam um labirinto burocrático que parece feito para desistir. Cada exigência adicional, cada comprovante, cada ida ao órgão público é uma oportunidade de o direito ser negado. E quando o benefício é concedido, vem a ameaça constante de revisão, de corte, de nova burocracia. A burocracia, nesse caso, é o instrumento de desistência: o sistema conta com o cansaço e a falta de informação para que muitos simplesmente abandonem seus direitos. Para os ricos e as grandes empresas, a burocracia é ágil, flexível e frequentemente invisível. Elas têm departamentos jurídicos, contadores, despachantes, acesso direto a funcionários públicos, facilidades para regularizar documentos, obter licenças, importar produtos, abrir empresas, contratar e demitir. A burocracia que trava o trabalhador é a mesma que se dobra para o grande empresário. Quando uma grande empresa quer uma isenção fiscal, o processo é célere. Quando quer construir uma fábrica, as licenças ambientais saem em tempo recorde. A burocracia, portanto, não é um mal universal; é uma ferramenta de classe: pesada e lenta para os pobres, leve e rápida para os ricos.

A solução não é acabar com a burocracia — como pregam os neoliberais —, porque isso significaria eliminar as regras que protegem o trabalhador, o consumidor e o meio ambiente. A solução é democratizar a burocracia: torná-la simples, clara, acessível e digital para todos; eliminar as exigências excessivas e desnecessárias; garantir que o trabalhador não precise de um advogado para acessar um direito; e, ao mesmo tempo, manter — e até endurecer — a burocracia que fiscaliza o grande capital, que cobra impostos dos ricos, que regula o sistema financeiro e que protege o interesse público. A burocracia não é o problema em si; o problema é que ela é desenhada para servir a quem já tem poder. A verdadeira reforma burocrática não é “menos Estado”, mas “Estado mais eficiente e mais justo”, que facilite a vida de quem precisa e dificulte a vida de quem explora.

Chave para o sucesso no mercado de trabalho — assim é propagado. Você precisa construir sua “marca pessoal”, se promover, se vender como um produto, se tornar “desejável” para o mercado. Seu valor está na sua imagem, na sua rede de contatos, na sua capacidade de autopromoção. Mas o branding pessoal é a transformação do ser humano em mercadoria. Você não é mais você; você é o seu perfil no LinkedIn, o seu currículo, a sua presença digital. O branding pessoal é a forma mais sofisticada de precarização: você é responsável por se vender, por se manter relevante, por se atualizar constantemente — sem que o sistema tenha qualquer obrigação com você. É a uberização da alma.

O slogan da campanha bolsonarista parece um patriotismo ingênuo, mas replica a estrutura do “Deutschland über alles” nazista. “Acima de tudo” significa acima da lei, acima dos direitos humanos, acima dos tratados internacionais. É a soberania entendida como licença para matar, torturar e destruir sem prestar contas a ninguém. O “Brasil” do slogan não é o povo brasileiro diverso e plural; é uma entidade mítica, cristã, militarizada e branca. Quem não se encaixa nesse molde não é Brasil, é inimigo.

Virtude guerreira exaltada como essencial para a defesa da nação, da raça ou da civilização. O fascismo constrói uma masculinidade agressiva, corajosa e violenta, que despreza a fragilidade, a dúvida e a compaixão. A bravura é o valor que justifica a violência contra o inimigo, a repressão aos adversários e a obediência ao líder. No cotidiano, a bravura fascista se traduz em desprezo por quem chora, por quem tem medo, por quem questiona — é a coragem de quem não pensa, de quem não hesita, de quem obedece. A bravura não é coragem; é a ausência de dúvida. E a dúvida é o que nos faz humanos.

Flexibilização, modernização das relações de trabalho, alternativa ao emprego formal — assim é promovida. O discurso oficial alega que a CLT é engessada e que é preciso criar novas formas de contratação para gerar empregos. No entanto, a brecha trabalhista — o trabalho intermitente, a pejotização, o contrato temporário — é a precarização legalizada. Ela permite que o empregador tenha todos os benefícios do trabalho sem nenhuma responsabilidade sobre quem trabalha. O trabalhador perde férias, 13º, FGTS, aposentadoria e estabilidade. A “flexibilização” é a palavra bonita para dizer que você pode ser demitido sem aviso, sem justa causa, sem direitos. Precarizar não cria empregos; apenas os torna mais baratos e mais frágeis.

Profissional essencial para conectar investidores e oportunidades, facilitar negócios e gerar liquidez — assim é apresentado. O broker é o elo entre o capital e o crescimento. Mas o broker é o parasita do sistema financeiro: ganha dinheiro sobre cada transação, cada movimento, cada oscilação de preço — sem produzir absolutamente nada. O broker lucra com a especulação, com a volatilidade, com o desespero dos que perdem. Quanto maior a instabilidade, maior o lucro do corretor. O broker é o que ganha dinheiro com o jogo, não com a fábrica. E quando o jogo desaba, ele já transferiu seu capital para paraísos fiscais.

Violência explícita ou velada apresentada como necessária para manter a ordem, a disciplina e a segurança. No neoliberalismo, a brutalidade se manifesta na violência policial contra periferias, na criminalização da pobreza, na repressão a movimentos sociais. No fascismo, a brutalidade é elevada a método de governo: a tortura, a perseguição, o extermínio do adversário são justificados como “defesa da nação”. A brutalidade, em ambos os casos, não é exceção; é a regra. Ela é o que mantém o medo, e o medo é o que mantém a subordinação. A brutalidade é a face visível do poder que não se sustenta por consenso.

Estado de exaustão física e mental reconhecido como doença pela Organização Mundial da Saúde, mas tratado pelo discurso neoliberal como um problema individual de “falta de resiliência” ou “incapacidade de lidar com o estresse”. O burnout é apresentado como algo que acontece com quem “não sabe administrar o tempo”, “não tem inteligência emocional” ou “se dedica demais sem equilíbrio”. Cursos de mindfulness, palestras de coaching e aplicativos de meditação são oferecidos como solução, enquanto a causa estrutural do problema permanece intocada.

No entanto, o burnout não é uma falha pessoal; é a resposta do corpo e da mente a um sistema que exige produção ininterrupta, metas impossíveis, jornadas exaustivas e a constante ameaça de demissão. O trabalhador adoece porque trabalha em condições que adoecem qualquer ser humano: pressão por resultados, assédio organizacional, sobrecarga de tarefas, ausência de autonomia, medo constante de ser descartado. O burnout é o diagnóstico de uma sociedade doente, não de um indivíduo frágil.

O discurso neoliberal medicaliza e individualiza o sofrimento: transforma a exaustão em “transtorno” e a soluçãona “autocuidado”. Enquanto o trabalhador busca terapia, o patrão mantém a mesma jornada; enquanto o funcionário faz meditação, a empresa mantém as mesmas metas impossíveis; enquanto o indivíduo tenta “se cuidar”, o sistema continua produzindo mais adoecimento. O burnout, assim, torna-se mais uma mercadoria: você compra o curso, o aplicativo, a consulta — e continua doente porque o que o adoece não foi mexido.

O burnout é uma doença política. Ele denuncia que o sistema capitalista não se importa com a saúde dos trabalhadores; importa-se apenas com a produtividade. Quando o corpo não aguenta mais, a culpa é jogada sobre ele. Mas a verdade é que o burnout não é um colapso individual — é o colapso de um modelo de sociedade que trata seres humanos como engrenagens descartáveis. Quem adoece não é “fraco” ou “despreparado”; é uma vítima de um sistema que transforma cansaço em lucro e exaustão em “falta de propósito”.

Desejo transformado em obrigação pessoal. O discurso neoliberal incentiva a busca incessante por “propósito”, “missão de vida”, “realização pessoal” — como se a vida só tivesse valor se você encontrar uma razão grandiosa para existir. Empresas e coaches vendem a ideia de que o trabalho deve ser “apaixonante” e que o sucesso profissional é a chave para a felicidade. No entanto, essa busca por propósito é uma armadilha: ela individualiza a realização, tornando cada um responsável por encontrar sentido em um sistema que, estruturalmente, nega sentido ao trabalho. Quem trabalha em um emprego precário, quem não encontra “propósito” no que faz, sente-se fracassado — não porque fracassou, mas porque o sistema lhe vendeu uma promessa falsa. O propósito não é descoberto; é construído coletivamente — mas o neoliberalismo não quer que você perceba isso.

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